“...faça prevalecer sempre a misericórdia sobre o julgamento.”
“...não...permita que os vícios sejam nutridos, mas que os ampute prudentemente e com caridade...”
e, enfim:
“Assumindo esse e outros testemunhos da discrição, mãe das virtudes, equilibre tudo de tal modo que haja o que os fortes desejam e que os fracos não fujam; precipuamente, conserve em tudo a presente Regra...”
Por conseguinte,
no mosteiro, vive-se sob uma regra e um abade, no quadro da comunidade fraterna.
O abade interpreta e aplica a regra às situações concretas, mas a regra fornece
o enquadramento dentro do qual todos, inclusive o abade, devem agir.
São Bento é otimista e quer infundir esperança, sabe que propõe algo difícil
– a busca da caridade perfeita através da obediência e da renúncia de si mesmo,
na imitação de Cristo, que tornam o monge humilde – mas crê que o monge pode
alcançar sua meta, se for fiel e perseverante (isto é, se não fugir logo,
“tomado de pavor, do caminho da salvação que nunca se abre senão por estreito
início”, conforme ensina no final do Prólogo), com a proteção da graça divina,
como dizem as últimas palavras da Regra no capítulo 73:
“Tu, pois,
quem quer que sejas, que te apressas para a pátria celeste, realiza, com o
auxílio de Cristo, esta mínima Regra de iniciação aqui escrita e, então, por
fim, chegarás, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das
virtudes de que falamos acima. Amém.”
Ainda que nos séculos que se seguiram a S. Bento, houvesse, no monaquismo
do Ocidente, grande variedade de regras e observâncias monásticas, sua Regra
acabou por impor-se, seja por suas próprias qualidades, seja pela ação de
Bento de Aniane que, tendo obtido a confiança do imperador Luiz , o Piedoso,
influenciou a legislação referente à vida monástica no sentido de conferir-lhe
o papel de código exclusivo para reger a vida dos mosteiros. Estamos, então,
no início do século IX, quando a instituição monástica, velha de alguns séculos,
já experimentou, por mais de uma vez, a necessidade de reforma.
“Escuta, filho, os preceitos do Mestre e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa fielmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige, agora, minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei.”
O capítulo 58, que trata da maneira de receber os que desejam ingressar no mosteiro, precisa, um pouco mais, o destinatário daquele convite inicial:
“ Seja designado para eles um dos mais velhos, que seja apto a obter o progresso das almas e se dedique a eles (isto é, os que desejam ingressar no mosteiro) com todo o interesse. Que haja solicitude em ver se procura verdadeiramente a Deus, se é solícito para com o ofício divino (ou seja, a oração que os monges rezam no coro várias vezes ao dia), a obediência e os opróbrios (as coisas difíceis que põem à prova nosso amor próprio).”
Portanto,
o convite destina-se simplesmente aos que buscam verdadeiramente a Deus, não
a si próprios ou outras coisas fora de Deus.
E o que aprenderá e deverá viver no mosteiro? De acordo com o capítulo 72,
a caridade perfeita dentro da comunidade fraterna que encontrará no mosteiro:
“Assim como há um zelo mau, de amargura, que separa de Deus e conduz ao inferno, assim também há um zelo bom, que separa dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna. Exerçam, portanto, os monges este zelo com amor ferventíssimo, isto é, antecipem-se uns aos outros em honra. Tolerem pacientissimamente suas fraquezas, quer do corpo, quer do caráter; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure aquilo que julga útil para si, mas, principalmente o que o é para o outro; ponham em ação de forma desinteressada a caridade fraterna; temam a Deus com amor; amem ao seu Abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente anteponham a Cristo – que nos conduza juntos para a vida eterna.”
Aparece, aqui, a figura do Abade, importantíssima na Regra, pois a ele cabe conduzir, em nome do Cristo, o rebanho que lhe foi confiado no mosteiro. São Bento, dirigindo-se ao abade, no capítulo 64, pede-lhe que:
“...saiba convir-lhe mais servir que presidir.”
“Odeie os vícios, ame os irmãos.”


