Sabe-se que seu desejo inicial de humilhação e ocultamento não pôde ser realizado. Desde muito cedo Bernardo destacou-se, primeiro como apologista e difusor do monaquismo reformado de Cister, depois, a partir de seu envolvimento na defesa da legitimidade da eleição do papa Inocêncio II, tornou-se uma personalidade de projeção européia. A promoção dessa causa colocou-o em contacto com reis e príncipes e a deposição de Anacleto que se havia imposto como papa em Roma, deve-se em grande parte a sua atuação. Desde então o prestígio de S. Bernardo não conheceu limites. Sua atuação no plano eclesial mais amplo foi marcada pelos ideais da Reforma Gregoriana. Seu zelo pela reforma da Igreja levou-o a interferir em diversas questões, seja corrigindo e admoestando bispos - certa vez escreveu ao arcebispo de Sens, seu próprio metropolita, que a sede episcopal que ocupava exigia um homem de relevantes méritos e lamentava não encontrá-los nele - e soberanos, seja combatendo erros doutrinais e heresias. A carta 238, a primeira das muitas que escreveu ao papa Eugênio III, seu antigo discípulo e monge de Claraval, é muito clara quanto às suas preocupações:
“Quem me dera poder contemplar, antes de minha morte, a volta da Igreja aos belos tempos apostólicos, quando estendia as redes para apanhar almas e não para pescar riquezas de ouro e prata.”
Embora estivesse consciente do papel próprio do monge, sua atividade externa que o levou freqüentes vezes para fora do claustro foi movida pela caridade e o desejo de servir à Igreja. Deve ser observado, porém, que sua ação não teria nenhuma repercussão se não estivesse baseada na sua autoridade moral e na reputação de virtude de que gozava. Sua vasta correspondência - mais de quinhentas cartas foram conservadas - mostra-o em contacto com as mais diversas categorias de pessoas, religiosos e religiosas, prelados, papas, nobres, reis e rainhas, dando a perceber a grande ascendência que tinha sobre muitos de seus correspondentes. S. Bernardo foi procurado para dirimir conflitos, efetuar reconciliações, opinar sobre questões teológicas, confortar e dirigir pessoas que depositavam nele toda sua confiança. A ele coube, por incumbência do papa Eugênio III, pregar a Segunda Cruzada, vista por Bernardo antes como empreendimento espiritual e uma causa justa do que como empresa bélica ou de conquista. Enfim, pode-se dizer que foi canonizado, ainda em vida, por seus contemporâneos, que viam nele, mais do que o grande abade e pregador que falava com autoridade a reis e papas, o modelo acabado de santidade. Por isso mesmo, Guilherme de Saint-Thierry, um dos mais fecundos e cultos autores espirituais da época, seu grande amigo e também abade, mas depois simples monge cisterciense, iniciou, ainda enquanto Bernardo vivia, sua biografia, certo de estar narrando a vida de um santo. Eis aqui um trecho deste escrito, denominado Vita Prima, onde Guilherme narra seu primeiro encontro com o ainda jovem abade de Claraval, em convalescença numa pequena cabana próxima ao mosteiro, em razão de seu esgotamento causado por austeridades excessivas:
“ Tendo entrado nessa cabana real, ao considerar tanto a habitação, como aquele que ali estava, senti-me penetrado de um tão grande respeito que, invoco a Deus por testemunha, era como se tivesse subido ao seu altar sagrado. Experimentava tão grande felicidade em contemplar esse homem e um tal desejo de compartilhar sua pobreza e a simplicidade de sua habitação que, se me fosse dada a escolha, nada teria desejado mais que permanecer sempre a seu lado para servi-lo.”
Incansável foi também o promotor da reforma monástica. Muito da intensa atividade de S. Bernardo explica-se pelo desejo de difundir a vida cisterciense e fazer crescer a filiação de sua querida Abadia de Claraval . Nesse campo sua atuação foi prodigiosa. O ritmo de expansão da Ordem Cisterciense durante sua vida nunca mais foi atingido. Bernardo pôs a serviço dessa causa seu talento extraordinário de escritor e teve o mérito de dar forma e expressão, de maneira eloqüente e atrativa, ao ideal de Cister. Uma célebre passagem de sua carta 142 tornou-se para a posteridade uma espécie de definição da vida cisterciense:
“Nossa maneira de viver é de abnegado serviço, de humildade, de pobreza voluntária. É a obediência, paz e alegria no Espírito Santo. Nossa vida é estar sob um mestre, um abade, uma regra e uma disciplina. Nossa vida é aplicar-se ao silêncio, praticar o jejum, as vigílias, orações, trabalho manual e sobretudo seguir o mais excelente caminho que é a caridade. Em todas essas observâncias, ir crescendo dia-a-dia e nelas perseverar até o último dia.”
Mas o monge cheio de ardor cuja ascese rigorosa comprometeu para sempre a saúde, soube também ser um pai espiritual cheio de ternura, que lamenta estar fora do mosteiro e longe de seus monges de Claraval. Da Itália, escreveu certa vez a Claraval, na carta 143, que, enquanto seus filhos choram pela ausência de um só, ele, Bernardo, deve chorar muito mais, pois é um só a sentir a ausência de todos. De fato, em sua concepção, o mosteiro é uma escola de caridade, onde Cristo é o mestre e a disciplina ministrada é o amor. Exercitando-se no amor mútuo e no amor a Cristo o monge prova ser discípulo da verdade. No exercício desse encargo de paternidade espiritual, além de sua terna caridade, ajudou-o muito seu conhecimento da alma humana. Seus escritos revelam-no possuidor de fina psicologia , como nas descrições que faz das diversas manifestações do orgulho humano no seu “Tratado dos graus da humildade e da soberba”, sua primeira obra, onde apresenta o itinerário da conversão à união mística com Deus. Eis aqui um trecho cheio de humor em que apresenta o monge tomado pela jactância, o quarto grau da soberba:
“É preciso que fale ou então arrebentará. Tem muito o que dizer e não pode conter-se mais. Tem fome e sede de ouvintes, aos quais lance suas vaidades, a quem declare seus sentimentos e faça conhecer o que é e o quanto vale. Encontrada ocasião de falar, se o assunto tratado são as letras, saem coisas novas e velhas, voam as frases, ressoam empoladas as palavras. Antecipa-se a quem o interroga, responde a quem não lhe pergunta. Ele mesmo pergunta, ele mesmo resolve, interrompendo a frase incompleta do interlocutor.”
Sua vastíssima
obra compreende alguns tratados, uma grande coleção de sermões, cartas e
outros escritos. A contribuição de Bernardo para a Teologia, sobretudo na
Cristologia, ainda está para ser devidamente avaliada. Sua sólida reputação
de autor espiritual valeu-lhe o título de doutor da Igreja. Alguns de seus
mais belos sermões foram dedicados à Virgem Maria, uma devoção de todos
os cistercienses.
Do que escreveu, sobretudo dirigindo-se a monges, pode-se colher algo de
seu itinerário espiritual. O ponto inicial deste parece ter sido um sadio
encontro consigo mesmo de maneira a conhecer a própria ambigüidade. Bernardo
percebeu certamente em si, nos seus primeiros anos de vida monástica, o
homem sujeito a fraquezas e paixões, como ele mesmo o admite nesta passagem
de um de seus sermões sobre o Cântico dos Cânticos (s. 16,1):
“Muitas vezes, não me envergonho de dizê-lo, sobretudo no início, quando entrei no Mosteiro, descobria em mim um coração duro e frio...”
Nesse processo de autodescoberta chegou à humildade que define como o conhecimento de si mesmo que torna o homem desprezível a seus próprios olhos. Todavia o autoconhecimento, com todas as decepções em que acarreta, não o levou ao desespero ou ao pessimismo mas projetou-o para Cristo. Assim descreve sua atitude (cf. s. 43,1 sobre o Cântico):
“ Também eu, quando me converti, irmãos, dei-me conta de que me faltava toda espécie de méritos. Em seu lugar tratei de fazer um pequeno ramalhete, para colocar junto ao meu peito, contendo todas ansiedades e amarguras de meu Senhor:...as bofetadas, as troças, as acusações, os cravos e todos os demais sofrimentos que sabemos ter padecido até a saciedade....para a salvação da humanidade.”
Bernardo, o amigo de Cristo, ascendeu na vida espiritual através da humildade e da confiança em sua misericórdia e seu amor. Por essa sadia ascese, que o fez olhar com simpatia e compaixão para seus irmãos, em quem via a mesma fragilidade que soube reconhecer em si, abriu-se a uma caridade mais perfeita e tornou-se mais capaz de receber os dons de Deus. Em um texto composto na última etapa de sua vida, certamente expressou algo do que viveu em seu íntimo (cf. Sermão sobre o Cântico 74, 5-6):
“ Ocorre às vezes que a alma é de tal forma arrastada para fora de si, separando-se de seus sentidos corporais, que não sente mais a si mesma, pois só é capaz de sentir o Verbo. Isto se realiza quando o espírito, encantado com a doçura do Verbo inefável, rouba-se por assim dizer a si mesmo, ou melhor, é arrebatado e tirado a si para gozar do Verbo.”
Num outro plano, encontramos o homem que se revela em toda sua sensibilidade afetiva, através de grandes e ternas amizades. Durante sua vida Bernardo esteve ligado intimamente a várias pessoas, homens e mulheres. Em suas amizades o natural - afeição, simpatia, afinidades - está ligado ao sobrenatural, os amigos e amigas eram amados em Deus. É assim que podia escrever à duquesa Emengarda da Bretanha, na carta 116:
“Se pudesses ler em meu coração o que aí o dedo de Deus dignou-se escrever quanto à minha afeição por ti...”
Bernardo, cuja saúde era precária desde a juventude, faleceu afinal em 1153, venerado como um santo e rodeado de seus monges em Claraval. Era então, segundo a expressão de Galand de Reigny, também cisterciense, o homem “cuja face todo o mundo desejava contemplar.”
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